Introdução
O conceito de fetichismo da mercadoria é uma das ideias mais impactantes e complexas formuladas por Karl Marx em O Capital. Ele não é apenas um detalhe teórico dentro da crítica marxista ao capitalismo, mas um elemento estrutural que revela como a economia capitalista transforma relações sociais em relações entre coisas. Ao discutir o fetichismo, Marx descreve um fenômeno que vai muito além da economia: trata-se de uma forma de percepção, uma maneira como os indivíduos experienciam o mundo dentro do capitalismo, interpretando objetos, valores e relações humanas de maneira distorcida.
Em outras palavras, quando Marx fala em fetichismo da mercadoria, ele está mostrando como o capitalismo obscurece as relações de exploração que estão por trás da produção, fazendo com que as pessoas vejam o mundo de forma invertida: as mercadorias ganham vida própria, como se tivessem valor em si mesmas, enquanto os seres humanos — os trabalhadores — aparecem como elementos secundários. Entender esse conceito é compreender um dos pilares da crítica marxista, pois o fetichismo produz alienação, naturaliza desigualdades e oculta formas de dominação.
A seguir, apresento uma análise detalhada e textual, com profundidade sociológica e filosófica, para compreender esse conceito central.
A Lógica do Capitalismo e o Surgimento das Mercadorias
Para Marx, a mercadoria é a célula básica do sistema capitalista. Tudo dentro do capitalismo se organiza a partir da produção e circulação de mercadorias. Mas o que é uma mercadoria? Ela é, ao mesmo tempo, valor de uso (ou seja, sua utilidade) e valor de troca (quanto vale no mercado, em relação a outras mercadorias). O que caracteriza o capitalismo não é simplesmente que mercadorias são produzidas, mas o fato de que a lógica da produção é orientada pelo valor de troca, não pela necessidade humana.
Isso significa que os objetos deixam de ser produzidos para satisfazer necessidades concretas e passam a ser produzidos principalmente para serem vendidos. O objetivo da produção deixa de ser o uso, e torna-se o lucro. Essa mudança profunda cria um mundo em que tudo se torna comprável e vendável: o tempo, o corpo, a força de trabalho, relações sociais, experiências, identidades — tudo pode ser transformado em mercadoria.
É nesse contexto que o fetichismo da mercadoria aparece como um fenômeno central.
O Fetichismo da Mercadoria: Uma Inversão da Realidade
A palavra “fetichismo” não é usada por acaso. Marx se inspira no sentido antropológico do termo, que designa objetos tidos como dotados de poderes sobrenaturais ou espirituais. Em certas culturas, fetiches eram objetos venerados como se possuíssem vida própria. Marx usa essa analogia para explicar que, no capitalismo, as mercadorias também parecem ganhar uma espécie de “vida”, autonomia e valor intrínseco — algo totalmente ilusório.
Em vez de perceber que o valor das mercadorias deriva do trabalho humano que as produziu, as pessoas passam a enxergá-las como se tivessem valor natural, independente dos trabalhadores. Ou seja, as mercadorias ganham uma aparência “mágica”, como se fossem coisas com valor próprio, ocultando as relações sociais e as condições reais da produção.
O fetichismo da mercadoria, portanto, funciona como uma inversão:
- As relações sociais entre pessoas aparecem como relações entre coisas.
- O trabalho humano que produz valor é ocultado.
- As coisas parecem comandar as pessoas, e não o contrário.
Isso não é apenas uma ilusão individual: é uma ilusão social. É uma forma de consciência produzida pela própria estrutura do capitalismo, não por escolhas individuais.
Como as Mercadorias Adquirem Vida Própria
Quando compramos um celular, por exemplo, raramente pensamos nas condições de trabalho de quem extraiu os minerais, montou as peças ou realizou as etapas da fabricação. O objeto chega até nós com um “valor” que parece brotar dele mesmo: um valor numérico, uma marca, um status, uma função. Não pensamos nas relações sociais por trás da mercadoria — e esse apagamento é precisamente o fetichismo.
A mercadoria, nesse sentido, não é apenas um objeto útil: ela se torna uma portadora de significados sociais, desejos, valores simbólicos. O celular não é apenas um aparelho; é um símbolo de status, identidade e pertencimento. Ele “fala” socialmente. As mercadorias, portanto, adquirem uma existência que ultrapassa sua materialidade. Elas se tornam agentes sociais.
Essa “vida social das coisas”, como alguns sociólogos contemporâneos chamam, é uma consequência direta do fetichismo: os objetos parecerem agir, enquanto os sujeitos passam a ser conduzidos pelas exigências do mercado.
O Fator Trabalho Ocultado
O fetichismo também oculta a exploração do trabalho. Marx afirma que todo valor de troca provém do trabalho socialmente necessário para produzir uma mercadoria. Mas, na experiência vivida das pessoas dentro do capitalismo, essa relação desaparece. O resultado é que:
- O trabalhador fica invisível.
- O processo de produção é escondido.
- A exploração, a desigualdade e a expropriação são apagadas.
Assim, o fetichismo não é apenas uma ilusão estética ou cultural: ele é funcional para a reprodução do capital. Ele impede que os indivíduos percebam as relações de dominação e exploração que sustentam o sistema.
Fetichismo, Consumo e Identidade
No capitalismo contemporâneo, marcado pela sociedade de consumo, o fetichismo ganha ainda mais intensidade. A mercadoria passa a ser vista não apenas como objeto de troca, mas como elemento fundamental na construção de identidades pessoais.
As pessoas compram:
- Roupas para se expressar;
- Celulares para se posicionarem socialmente;
- Objetos para sentirem pertencimento;
- Marcas para comunicarem status;
- Produtos para “serem alguém”.
O capitalismo cria uma dinâmica em que a identidade é performada por meio de mercadorias. Assim, as pessoas se relacionam com as mercadorias como se elas tivessem, de fato, poderes mágicos: de transformar vidas, de conferir valor pessoal, de gerar reconhecimento social. É exatamente isso que Marx identifica como o caráter fetichista das mercadorias: a atribuição de “poderes” sociais a objetos.
O Fetichismo na Sociedade do Marketing e da Publicidade
A publicidade é uma das principais forças contemporâneas que intensificam o fetichismo. Ela cria histórias, sentidos e emoções em torno das mercadorias, produzindo desejos e expectativas que não têm relação com o valor material do produto. Um perfume, por exemplo, não é anunciado como uma substância química com determinada fragrância, mas como:
- liberdade,
- sensualidade,
- triunfo,
- poder,
- individualidade.
O objeto é apresentado como se tivesse poder transformador. Isso reforça o fenômeno descrito por Marx: objetos que ganham aura, brilho, valor simbólico — como se fossem entidades autônomas.
A Mercadoria Como Mediadora das Relações Sociais
Outro aspecto fundamental do fetichismo é que, no capitalismo, as relações entre as pessoas se realizam por meio de mercadorias. Elas são a mediação básica entre os seres humanos. Isso significa que:
- o trabalhador só obtém reconhecimento por meio do salário,
- o valor da pessoa se expressa pelo que ela é capaz de consumir,
- as relações afetivas podem ser mediadas por presentes,
- o trabalho torna-se mercadoria,
- o tempo se converte em valor monetário.
Marx diria que, dentro do capitalismo, as coisas se humanizam e as pessoas se coisificam. Essa inversão é a essência do fetichismo.
Fetichismo e Alienação
Fetichismo da mercadoria não pode ser entendido isoladamente. Ele está conectado a outro conceito fundamental: a alienação. Para Marx, a alienação ocorre quando o trabalhador:
- perde o controle sobre o processo de trabalho,
- perde o controle sobre o produto de seu trabalho,
- perde a conexão com sua própria humanidade,
- perde a relação com os outros seres humanos.
A alienação cria as condições para que o fetichismo exista. Ao ser alienado de sua própria produção, o trabalhador não reconhece sua presença no objeto criado. Esse apagamento abre espaço para que a mercadoria pareça ter vida própria. Por isso, Marx diz que o fetichismo é uma forma específica de alienação: uma alienação perceptiva, cultural e simbólica.
O Fetichismo e o Valor Monetário
Outra dimensão essencial do fetichismo é que o dinheiro, no capitalismo, torna-se a mercadoria mais fetichizada de todas. Ele aparece como medida universal, como algo que pode se transformar em qualquer coisa. O dinheiro é a expressão máxima da abstração. Ele permite que todas as relações sociais sejam reduzidas a números, valores, equivalências.
Marx afirma que o dinheiro é a “expressão perfeita do fetichismo”, porque é o objeto que melhor encarna a capacidade de esconder relações sociais. Ele transforma desigualdades materiais em números neutros e aparentemente objetivos.
O Fetichismo Hoje: Do Capitalismo Industrial ao Capitalismo Digital
Na contemporaneidade, o fetichismo da mercadoria não desaparece; ele se transforma e se intensifica. O capitalismo digital cria novas formas de mercadorias — dados, influenciadores, plataformas, algoritmos — e novas formas de fetichismo.
Hoje, fetichizamos:
- smartphones,
- marcas de luxo,
- seguidores nas redes sociais,
- curtidas e visibilidade,
- tecnologia como promessa de salvação,
- experiências como mercadorias simbólicas.
O capitalismo tornou até mesmo a própria vida digital uma forma de mercadoria. O fetichismo opera agora não apenas na relação com objetos físicos, mas também com objetos imateriais: imagens, status digital, métricas de engajamento.
As redes sociais são máquinas de fetichismo: elas transformam pessoas em mercadorias, capitalizam emoções, transformam a vida em espetáculo e atribuem “valor” a métricas artificiais. Mais do que nunca, vivemos num mundo em que as coisas parecem ter vida e os seres humanos parecem funcionar como engrenagens.
Por que o Fetichismo é Tão Importante na Teoria Marxista?
Porque ele explica o modo como o capitalismo se reproduz. Não basta que o capitalismo explore economicamente: ele precisa também construir formas de percepção que tornem essa exploração invisível, aceitável ou natural.
O fetichismo é uma forma de cegueira social. Ele impede que as pessoas vejam:
- que o valor vem do trabalho,
- que há relações de exploração,
- que as mercadorias não têm poder próprio,
- que a desigualdade é construída socialmente,
- que o capitalismo é histórico, não natural.
Sem fetichismo, o capitalismo seria exposto. Com fetichismo, ele aparece como “o modo normal de viver”.
Conclusão
O fetichismo da mercadoria é um conceito que ultrapassa o campo da economia e atinge a maneira como percebemos o mundo. Ele descreve um processo profundo de inversão: as coisas ganham vida, enquanto as relações humanas se tornam invisíveis. No capitalismo contemporâneo, marcado pelo consumo, pela cultura das marcas, pelas redes sociais e pelo marketing, o fetichismo não apenas persiste — ele se intensifica e se expande para novas dimensões da vida.
Compreender esse conceito é essencial para entender como o capitalismo molda nossas percepções, nossas identidades e nossa relação com o trabalho e com os outros. O fetichismo é uma forma de interpretação social que naturaliza o sistema e nos impede de enxergar suas contradições. Ao revelar esse mecanismo, Marx não está descrevendo apenas uma característica do capitalismo do século XIX, mas um fenômeno cada vez mais visível na sociedade atual.
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