Introdução

O Irã vive uma das maiores crises sociopolíticas de sua história recente. Desde o final de dezembro de 2025, uma onda de protestos se espalhou por praticamente todas as províncias do país, marcando um período de intensa contestação popular ao regime da República Islâmica. O movimento começou como uma reação às dificuldades econômicas — inflação altíssima, desvalorização da moeda e queda do poder de compra —, mas rapidamente evoluiu para um desafio mais amplo ao sistema político vigente. As manifestações, que já duram semanas, tornaram-se as maiores desde a Revolução Islâmica de 1979.

As informações sobre o número de mortos e detidos variam amplamente devido ao bloqueio quase total da internet e das comunicações imposto pelo governo desde 8 de janeiro de 2026, quando as autoridades tentaram restringir a circulação de informações e dificultar a coordenação entre manifestantes e a imprensa internacional. Ainda assim, diferentes fontes de direitos humanos, agências internacionais de notícias e depoimentos de exilados apontam para um cenário de conflito massivo, com dezenas de milhares de detidos e mortos em confrontos com as forças de segurança.

O início dos protestos e suas causas

Os protestos começaram em 28 de dezembro de 2025, em várias cidades do Irã, como uma reação direta à deterioração das condições econômicas. O país vinha enfrentando uma combinação de inflação alta, colapso da moeda nacional (rial), escassez de bens essenciais e medidas de austeridade que afetaram drasticamente o padrão de vida da população. A insatisfação disseminou-se rapidamente entre comerciantes, trabalhadores e jovens, levando à paralisação de atividades no histórico Grande Bazar de Teerã e a ocupações de praças em várias metrópoles.

A crise econômica de longo prazo no Irã não é um fenômeno novo. Desde 2025, protestos surgiram por razões específicas como:

  • a crise hídrica e cortes de água em diversas províncias, que motivaram protestos locais contra a má gestão de recursos públicos;
  • déficits na energia elétrica e apagões prolongados que afetaram residências e fábricas;
  • greves e manifestações de profissionais como padeiros, atingidos por políticas de preços de subsídios e aumentos nos custos de produção.

Esse acúmulo de insatisfações criou um caldo de cultura que, à beira do final de 2025, estourou em protestos em grande escala, motivados não apenas por preocupações econômicas, mas também por demandas políticas mais amplas.

A expansão das manifestações

O que começou como protestos localizados contra condições econômicas rapidamente ganhou dimensão nacional. Até o início de janeiro de 2026, as manifestações já alcançavam todas as 31 províncias do país e dezenas de cidades — incluindo Teerã, Isfahan, Shiraz, Mashhad, Qom e Bandar Abbas —, com números crescentes de participantes e uma diversidade de grupos sociais envolvidos, como estudantes, comerciantes, professores e trabalhadores urbanos.

Os slogans evoluíram rapidamente. Inicialmente focados em questões econômicas, como “Pão, emprego e dignidade”, passaram a incluir reivindicações políticas amplas, como:

  • “Morte ao ditador”
  • “Abaixo a República Islâmica”
  • “Liberdade e justiça para todos”

A participação de jovens e mulheres foi particularmente significativa, lembrando os grandes movimentos sociais recentes no país.

Esse caráter multifacetado — reunindo diferentes demandas sociais e agrupamentos — foi um fator importante para a intensificação das manifestações, aproximando-as de um movimento mais amplo de contestação do regime político iraniano.

Resposta do governo: repressão, bloqueios e narrativa oficial

A resposta das autoridades iranianas foi duríssima. O regime declarou repetidas vezes que os protestos não eram meramente econômicos, mas parte de uma tentativa organizada de desestabilizar o país. Representantes oficiais chegaram a rotular manifestantes como “terroristas” e “inimigos de Deus”, termos que, no sistema jurídico iraniano, podem justificar punições severas, inclusive a pena de morte.

Uma das primeiras medidas governamentais foi o bloqueio quase total do acesso à internet, telefone e outras formas de comunicação digital, iniciado em 8 de janeiro de 2026. Essa ação teve o objetivo declarado de dificultar a coordenação dos protestos e impedir a circulação de imagens e relatos sobre as ações das forças de segurança. Grupos de monitoramento confirmaram que o apagão de comunicação afetou uma grande parte do país e coincidiu com um aumento da violência estatal.

Ao mesmo tempo, as forças de segurança, incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a polícia regular, foram mobilizadas em grande escala. Relatos de organizações de direitos humanos descrevem o uso de força letal — incluindo munição real — contra manifestantes, resultando em um número significativo de mortos e feridos. Testemunhas e profissionais de saúde em cidades como Teerã relataram hospitais sobrecarregados com vítimas de tiros, especialmente ferimentos graves nos olhos e na cabeça, fruto de tiroteios diretos contra multidões pacíficas.

Número de mortos, detidos e feridos

Estimar o número exato de vítimas tem sido difícil devido à censura e ao bloqueio das comunicações. Relatórios de grupos internacionais e ativistas — muitos analisados e citados por agências de notícias — mostraram uma gama de números que variam em função das fontes:

  • Organizações de direitos humanos e grupos ativistas citam que o número de mortos pode estar entre 12.000 e 20.000 em todo o país, incluindo manifestantes e membros das forças de segurança.
  • Autoridades iranianas reconheceram publicamente cerca de 2.000 mortes, incluindo policiais e militares, em desenvolvimento que indica o impacto extremo do confronto.
  • Grupos independentes reportaram mais de 16.700 prisões desde o início das manifestações, refletindo uma vasta operação de detenção em massa.

Casos específicos, como o uso indiscriminado de munição contra multidões, resultaram em ferimentos graves documentados em hospitais, incluindo centenas de vítimas com lesões oculares que podem levar à cegueira permanente.

Táticas de repressão e violações de direitos humanos

Organizações como a Human Rights Watch e Amnesty International denunciaram amplamente a repressão violenta e o uso excessivo da força pelas autoridades iranianas. Relatórios destacam que, em muitos casos, as forças de segurança dispararam contra manifestantes que não representavam ameaça imediata e que a resposta estatal incluiu detenções arbitrárias, tortura e intimidação das famílias das vítimas.

As leis aplicadas às pessoas detidas tornaram-se motivo de preocupação internacional, com acusações de que protestantes são rotulados como “inimigos de Deus” — classificação que, no sistema judicial iraniano, pode acarretar a pena de morte sem um julgamento justo.

Além disso, a interrupção das comunicações dificultou o acesso a informações independentes e mobilizou a crítica de cineastas, jornalistas e figuras culturais iranianas no exterior, que qualificaram o apagão digital como uma ferramenta deliberada de repressão para ocultar a violência do mundo.

O papel de líderes exilados e figuras históricas

No contexto do agravamento dos protestos, figuras da oposição no exterior ganharam destaque, em particular Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã deposto em 1979. Desde seu exílio, Pahlavi tem chamado repetidamente os iranianos às ruas, encorajando-os a desafiar o regime e a exigir mudanças profundas, inclusive defendendo a restauração de uma monarquia constitucional como alternativa ao sistema clerical.

As menções ao antigo regime e ao símbolo do “leão e sol” — em uso antes da Revolução Islâmica — tornaram-se parte do repertório de protestos em algumas áreas, sinalizando a amplitude da insatisfação popular e a busca por símbolos unificadores que transcendam a atual ordem política.

Reações internacionais

A propagação dos protestos e a dura repressão desencadearam reações diversas no cenário internacional. Países ocidentais, incluindo os Estados Unidos e membros da União Europeia, expressaram apoio ao direito dos iranianos de protestar pacificamente e criticaram veementemente a violência estatal.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em declarações públicas, incentivou os protestos e qualificou os manifestantes como “corajosos”, afirmando que apoio poderia chegar e condicionando o diálogo com Teerã ao fim da repressão. Em contrapartida, o governo iraniano acusou Washington e aliados regionais como Israel de tentar instrumentalizar o levante para fins geopolíticos.

Organizações internacionais, como a ONU, também manifestaram preocupação com as violações de direitos humanos, pedindo que Teerã respeite o direito à liberdade de expressão, evite o uso desproporcional da força e permita acesso seguro a informações independentes.

Impactos internos e perspectivas futuras

A intensidade e duração dos protestos colocaram em xeque a estabilidade interna do Irã e o próprio futuro do regime clerical, que enfrenta não apenas uma crise econômica acentuada, mas também um questionamento profundo de sua legitimidade. Analistas políticos destacam que os protestos atuais, embora tenham começado por motivos econômicos, rapidamente assumiram contornos políticos que desafiam a estrutura de poder vigente.

A continuidade dos protestos por quase duas semanas, apesar da violência da repressão, e a ampla participação popular — incluindo estudantes, trabalhadores e setores da classe média — sugerem uma insatisfação social ampla e complexa, que pode ter efeitos duradouros sobre a política interna.

Ao mesmo tempo, a resposta governamental, que combina repressão violenta com tentativas de reformas econômicas pontuais, tem se mostrado insuficiente para acalmar a insatisfação popular, levando observadores a considerarem cenários que vão desde uma crise prolongada até pressões por reformas políticas mais profundas.

Conclusão

Os protestos que abalam o Irã desde o final de dezembro de 2025 representam uma crise multifacetada, com dimensões econômicas, políticas, sociais e geopolíticas. O movimento começou como uma reação à deterioração da vida cotidiana — caracterizada por inflação, desemprego e miséria crescente — e evoluiu rapidamente para uma contestação mais ampla do modelo de governo e da autoridade da República Islâmica.

A repressão estatal tem sido severa, marcada por um grande número de mortos, milhares de detidos e um aparato repressivo disposto a usar todos os meios à sua disposição, incluindo apagões de comunicação e acusações criminais pesadas contra os manifestantes.

No plano internacional, a crise divide opiniões e provoca debates sobre intervenção, soberania e direitos humanos. Enquanto governos ocidentais e organizações multilaterais pedem moderação e respeito aos direitos civis, o regime iraniano vê a situação como uma ameaça à sua existência e responsabiliza atores externos.

O futuro imediato permanece incerto. A capacidade de resistência dos manifestantes e a resposta do regime determinarão não apenas os rumos políticos do Irã, mas também terão efeitos amplos nas relações regionais do Oriente Médio, nas políticas de segurança global e no equilíbrio de forças entre potências externas envolvidas na questão.

By FocoGeo

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