Uma análise geopolítica de Putin e Trump como faces da mesma moeda
Introdução
Nas últimas décadas, o mundo assistiu a grandes intervenções de potências globais em conflitos de fronteira, intervenções militares e disputas por influência. Entre os episódios mais recentes que polarizam a atenção internacional, destacam-se a invasão da Ucrânia pela Rússia, liderada por Vladimir Putin, e a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, promovida sob a administração de Donald Trump no início de 2026. Embora à primeira vista esses eventos pareçam distintos — um confrontando a soberania de um Estado europeu e outro envolvendo ação militar no hemisfério ocidental — há importantes paralelos que revelam como ambos os líderes e seus governos estão reconfigurando a política internacional em nome de interesses estratégicos.
Ambos os casos podem ser compreendidos como expressões contemporâneas de uma lógica de poder onde supremacia geopolítica, interesses econômicos e afirmações de soberania nacional intensa se entrelaçam. Apesar de contextos históricos e regionais diferentes, Putin e Trump compartilham certos traços estratégicos, dando forma a uma nova dinâmica global que desafia normas e instituições internacionais.
Neste artigo, abordaremos:
- O contexto e desenvolvimento das intervenções na Ucrânia e Venezuela;
- As justificativas e narrativas usadas por Rússia e Estados Unidos;
- Os objetivos estratégicos de Putin e Trump;
- O papel das esferas de influência e dominação geopolítica;
- Como essas ações reforçam um padrão de comportamento global que enfraquece instituições multilaterais;
- Conclusões sobre o que esses episódios revelam sobre a política de poder no mundo contemporâneo.
A ideia central é evidenciar que, apesar das diferenças, existem elementos comuns que conectam essas duas intervenções — não apenas em suas causas manifestas, mas na lógica subjacente que impulsiona líderes como Putin e Trump a agir de maneira que desconsidera limites jurídicos e princípios tradicionais de soberania.
A intervenção russa na Ucrânia: contexto e motivação
A guerra e a justificação oficial
Em 2022, a Rússia iniciou uma invasão em grande escala da Ucrânia, justificando sua ação como uma “operação especial” destinada a proteger suas fronteiras e defender “interesses de segurança nacional” frente à expansão da Otan e à aproximação da Ucrânia da aliança militar ocidental. Este movimento foi amplamente condenado pelo Ocidente e é visto como uma violação clara da soberania ucraniana.

Putin argumentou repetidamente que a aproximação da Ucrânia à Otan representava uma ameaça existencial à Rússia, e que era seu direito proteger “a esfera de influência” russa.
Estratégias e narrativa
Putin e o Kremlin usaram uma narrativa de defesa da “segurança nacional”, de reconstituição histórica da influência russa e de proteção das populações de origem russa no leste da Ucrânia para justificar a invasão. Isso ressoa com discursos de outras potências que afirmam a necessidade de garantir “zonas de segurança” ou de responder a ameaças percebidas, mesmo à custa da soberania de outros países.
A invasão da Ucrânia não foi apenas um conflito regional; tornou-se símbolo de uma política externa revisionista e assertiva que rejeita a unicidade normativa do pós-Guerra Fria.
Consequências geopolíticas
O conflito na Ucrânia se estendeu por anos, envolvendo sanções econômicas ocidentais contra a Rússia, uma resposta militar ucraniana apoiada por aliados europeus e americanos, e esforços diplomáticos contínuos que, até o momento, não conseguiram encerrar de forma duradoura a guerra.
A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela: contexto e motivação
Eventos recentes em 2026
Em janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma operação militar que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, em uma operação que chocou o mundo e gerou ampla discussão sobre sua legalidade.
Desde o final de 2025, forças americanas vinham realizando ações militares no Caribe e ao largo da costa venezuelana — incluindo ataques a embarcações que, segundo o governo dos EUA, estariam envolvidas em tráfico de drogas ou no transporte de petróleo sancionado.

Nos dias seguintes, o governo Trump anunciou planos ambiciosos de controlar e revitalizar a indústria petrolífera venezuelana — incluindo investimentos bilionários e a transferência de produção para mercados norte-americanos.
Justificativas públicas
O governo dos Estados Unidos justificou sua intervenção com base em diversas razões:
- Combate ao narcotráfico e ao que classificou como “narcoterrorismo”;
- Prisão de líderes venezuelanos por acusações de tráfico de drogas e corrupção;
- Alegação de que a operação era parte de um esforço de “cumprimento da lei”, não de uma guerra declarada.
Apesar desses argumentos, a ação desencadeou críticas de países na ONU e de líderes globais que a classificaram como crime de agressão e violação clara da soberania venezuelana.
Similaridades estratégicas: duas faces da mesma moeda?
Embora os contextos sejam diferentes — um conflito territorial entre Estados vizinhos (Rússia e Ucrânia) e uma intervenção militar estadunidense em um Estado distante — é possível observar paralelos significativos entre os objetivos e métodos empregados por Putin e Trump.
1. Redefinição de esferas de influência
Ambos os líderes atuam com base em uma visão de mundo onde potências assertivas buscam moldar realidades regionais e globais de acordo com seus interesses estratégicos.
No caso de Putin, a expansão militar na Ucrânia é uma tentativa de reconstruir ou reafirmar a Rússia como uma potência que não aceita limites impostos por alianças ocidentais.
Já Trump, ao intervir militarmente e capturar o líder venezuelano, demonstra que os Estados Unidos entendem o hemisfério ocidental como parte integral de sua zona de influência tradicional, alinhando-se com a antiga Doutrina Monroe de domínio regional — ainda que hoje explicitada em termos militares diretos.
Nessa lógica, ambos os líderes operam sob a premissa de que grandes potências têm o direito ou mesmo obrigação de projetar força para moldar eventos em áreas consideradas estratégicas, mesmo quando isso contraria normas de soberania ou de não intervenção.
2. Uso de justificativas legais e narrativas de segurança
Putin justificou a invasão da Ucrânia como uma defesa contra expansionismo militar ocidental, enquanto Trump justificou sua ação na Venezuela como uma operação de “cumprimento da lei” e “combate ao narcotráfico” — ambos usando narrativas que visam legitimar ações que, de outra forma, seriam vistas como violações flagrantes de soberania.
Essa retórica pode ser compreendida como uma estratégia de sobreposição de razões legais ou morais às ambições geopolíticas reais — uma tática comum em relações internacionais onde grandes potências tratam seus próprios interesses como normas universais.
3. Enfraquecimento de normas multilaterais
As ações de ambos têm impacto direto sobre instituições internacionais. A invasão russa da Ucrânia desafiou o sistema de segurança europeu e as normas da ONU sobre integridade territorial.
Da mesma forma, a operação dos EUA na Venezuela, condenada na ONU por vários países como um “crime de agressão”, indica uma disposição unilateral de usar a força sem o respaldo de organismos multilaterais.
A consequência é um enfraquecimento geral das normas que regem a cooperação internacional, substituindo ordem jurídica por ordem de fato — um mundo em que as grandes potências impõem sua vontade, criando precedentes perigosos.
4. Projeção de poder e recursos
No caso venezuelano, a intenção declarada de controlar a produção e exportação de petróleo também aponta para interesses econômicos estratégicos que ultrapassam a simples “justiça penal” ou combate ao narcotráfico.
Da mesma forma, a invasão russa da Ucrânia está enraizada em interesses estratégicos de longo prazo, incluindo controle de territórios, recursos e alianças.
Diferenças importantes — mas com convergências
Apesar das semelhanças, é crucial reconhecer diferenças essenciais:
- Escala e contexto: a guerra na Ucrânia é um conflito entre Estados fronteiriços com consequências continentais, enquanto a intervenção dos EUA na Venezuela é um episódio de projeção militar fora das fronteiras do país.
- Reação internacional: a invasão da Ucrânia desencadeou sanções amplas e isolamento econômico à Rússia; a ação americana contra a Venezuela tem sido debatida mais polarizadamente, com apoio e crítica internacionais variadas.
Essas diferenças, entretanto, não anulam os elementos comuns de disputa por poder, instrumentalização de narrativas de segurança e desrespeito a normas de soberania em prol de objetivos estratégicos nacionais.
Repercussões e implicações para o sistema internacional
Instabilidade normativa
Ambos os episódios alimentam a percepção de que grandes potências estão novamente dispostas a desafiar normas estabelecidas do pós-Guerra Fria, revertendo progressos em prol de um sistema em que “o direito dos fortes” prevalece sobre o direito internacional.
Erosão da confiança nas instituições
A ONU, a Otan e outros mecanismos multilaterais vêem sua autoridade questionada quando grandes potências atuam unilateralmente, conforme ocorrido na Venezuela e na Ucrânia.
Novos alinhamentos globais
A cooperação entre Moscou, países do BRICS, e nações contrárias à hegemonia ocidental e as ações assertivas de Washington em sua “zona de influência” sinalizam uma divisão mais profunda do sistema internacional, similar àquela da Guerra Fria — mas agora menos bipolar e mais multipolar.
Conclusão
A Rússia na Ucrânia e os Estados Unidos na Venezuela representam menos uma exceção histórica e mais um sinal de um padrão emergente nas relações internacionais modernas. Tanto Putin quanto Trump, cada um à sua maneira, demonstram uma disposição a usar poder militar e narrativas estratégicas para moldar realidades geopolíticas, muitas vezes desconsiderando normas de soberania e do sistema internacional.
Enquanto Putin justifica sua ação como defesa de uma esfera de influência, Trump age sob a lógica de proteção de interesses e manutenção de supremacia regional. Em ambos os casos, a regra que emerge é a mesma: o poder político e militar substitui, em prática, regras jurídicas e consensos internacionais.
Essa convergência coloca o mundo em um momento crítico, no qual a ordem global é redefinida por megapotências que reivindicam o direito de intervir onde e quando seus interesses forem contestados — um cenário que demanda reflexão profunda sobre os limites, os perigos e os riscos de um mundo em que normas internacionais podem ser eclipsadas pela atuação unilateral de líderes como Putin e Trump.