Introdução

O mundo vive um momento histórico sensível no campo da segurança internacional. Uma das maiores conquistas da governança global do pós-Guerra Fria — o controle de armas nucleares entre as duas potências mais poderosas — está prestes a ser enterrada. O Tratado de Redução de Armas Estratégicas (New START), um acordo bilateral entre os Estados Unidos e a Rússia que limitava o número de ogivas nucleares e sistemas de lançamento, está chegando ao fim sem um substituto aprovado. O cenário desenhado por essa ruptura levanta a possibilidade de uma nova corrida armamentista — não apenas entre Moscou e Washington, mas com impactos potenciais para alianças internacionais, políticas de dissuasão e estabilidade global.

O fim dos limites nucleares não se trata apenas de uma questão técnica entre dois Estados. Ele simboliza uma mudança no paradigma de segurança internacional, refletindo o enfraquecimento dos mecanismos multilaterais, a reemergência de rivalidades geopolíticas e a erosão de um sistema de normas que conseguiu, por décadas, conter a proliferação desenfreada de armamentos.

Neste artigo, vamos explorar as origens e a importância do New START, entender por que ele está prestes a expirar, analisar as reações das potências nucleares e refletir sobre as possíveis consequências de um mundo sem limites nucleares reforçados.

O que foi o Tratado New START

Assinado em 2010 pelos então presidentes dos Estados Unidos e da Rússia, o New START representou a continuação de décadas de esforços para reduzir arsenais nucleares desde o auge da Guerra Fria. Ao entrar em vigor em 2011, o tratado estabeleceu limites claros para o número de ogivas nucleares estrategicamente implantadas e sistemas de lançamento (mísseis balísticos intercontinentais, bombardeiros estratégicos e lançadores), além de criar mecanismos de verificação, inspeção e transparência mútua.

Quantitativos estabelecidos pelo Tratado New START

O Tratado New START estabelecia três limites centrais, rigorosamente monitorados, para cada país (Estados Unidos e Rússia):

1- Ogivas nucleares estratégicas implantadas:
Máximo de 1.550 ogivas nucleares por país
Essas ogivas são consideradas “implantadas” quando estão efetivamente posicionadas em mísseis ou bombardeiros prontos para uso.
Antes desse tratado, os arsenais estratégicos ativos chegavam facilmente a mais de 2.000 ogivas por lado.

2- Sistemas de lançamento estratégicos implantados:
Máximo de 700 sistemas de lançamento implantados, incluindo:

  1. Mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs)
  2. Mísseis lançados por submarinos (SLBMs)
  3. Bombardeiros estratégicos capazes de transportar armas nucleares

Esses são os vetores, ou seja, os meios efetivos de entrega das ogivas.

3- Sistemas de lançamento totais (implantados + não implantados):
Máximo de 800 sistemas de lançamento no total, somando:
– Sistemas ativos
– Sistemas em manutenção
– Sistemas armazenados, mas ainda operacionais

Esse ponto era crucial para impedir que os países “driblassem” o tratado mantendo grandes estoques prontos para rápida ativação.

O New START foi visto como um pilar da estabilidade estratégica entre as duas maiores potências nucleares do mundo. Ao reduzir a incerteza sobre as capacidades nucleares de cada lado, o tratado ajudou a mitigar uma corrida armamentista aberta e a reforçar os princípios de dissuasão que fundamentam a segurança global pós-Guerra Fria.

A importância do tratado, contudo, não estava apenas na contagem de armas, mas no sistema de confiança e previsibilidade que ele institucionalizava. Inspeções regulares e intercâmbios de dados contribuíam para reduzir a probabilidade de interpretações errôneas que pudessem levar à escalada ou a erros de cálculo estratégicos.

Por que o New START está expirando?

O New START foi prorrogado em 2021 por cinco anos, após negociações intensas entre Moscou e Washington. No entanto, essa extensão está prestes a terminar, e até o momento não foi acordado um novo tratado que substitua suas funções. Vários fatores contribuem para esse cenário:

  • Desconfiança mútua: Ao longo da última década, as relações entre EUA e Rússia se deterioraram, reflexo de divergências em temas como expansão da OTAN, conflitos regionais (como Ucrânia e Síria) e acusações mútuas de interferência política.
  • Mudança no ambiente geopolítico: A competição estratégica foi ampliada pela ascensão de outras potências nucleares, como China, que não é parte do New START e continua expandindo seu arsenal.
  • Prioridades internas: Tanto em Washington quanto em Moscou, prioridades domésticas e políticas internas passaram a competir com os esforços de desarmamento, reduzindo o ímpeto para negociações multilaterais aprofundadas.
  • Críticas ao tratado: Alguns setores nos Estados Unidos argumentam que o New START favorecia a Rússia e não incluía outras potências nucleares importantes, enquanto na Rússia há críticas similares de que o acordo limitava desproporcionalmente suas capacidades.

Com o fim iminente dessa estrutura legal e de verificação, o mundo se aproxima de um marco sem precedentes desde o período pós-Guerra Fria.

Reações das potências nucleares

A resposta oficial da Rússia tem sido assertiva. Autoridades de Moscou declararam que estão preparadas para um novo mundo sem limites nucleares, sugerindo que o fim do New START não reduzirá sua disposição estratégica de manter um arsenal robusto. Na visão russa, a ausência de restrições legais pode ser encarada como uma liberdade estratégica, mas também é um sinal de desprezo pelo regime de controle de armas que vinha sustentando a estabilidade entre grandes potências.

Do lado americano, há preocupações explícitas com os riscos de um ambiente sem limites nucleares. Autoridades em Washington argumentam que um mundo sem New START seria menos previsível e mais perigoso, aumentando a probabilidade de mal-entendidos, erro de cálculo e escalada involuntária. Alguns representantes políticos americanos defendem que a continuidade de mecanismos de verificação é essencial para reduzir o risco de uma corrida armamentista descontrolada.

Outras potências nucleares, como China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte, observam atentamente esse processo. A China, em particular, tem continuamente reforçado seu arsenal, ainda que em uma escala menor do que Rússia e Estados Unidos, e não integra nenhum dos tratados tradicionais de limitação de armas nucleares.

O que significa um mundo sem limites nucleares?

O fim do New START não equivale automaticamente a uma corrida armamentista aberta, mas cria um ambiente no qual:

  1. Não há restrições explícitas para a expansão de arsenais nucleares estratégicos de EUA e Rússia.
  2. Mecanismos de verificação e inspeção se tornam menos frequentes ou inexistentes, reduzindo a transparência.
  3. A confiança mútua entre potências diminui, aumentando o risco de interpretação errônea das intenções militares de cada lado.
  4. Outras potências nucleares podem sentir-se encorajadas a ampliar seus próprios arsenais ou estratégias de dissuasão.
  5. A probabilidade de respostas em cadeia — como a modernização acelerada de armas — tende a aumentar.

Esses elementos contribuem para um cenário no qual a estabilidade estratégica global fica mais frágil, e as antigas restrições que amenizavam o risco de confrontos nucleares passam a perder força.

A ameaça de uma nova corrida armamentista

Embora o termo “corrida armamentista” esteja frequentemente associado ao período da Guerra Fria, ele continua relevante se for entendido como um processo de competição entre Estados para desenvolver e acumular arsenais militares cada vez mais sofisticados e numerosos. Nesse sentido, o fim do New START pode ser interpretado como um potencial catalisador de uma nova corrida — agora num contexto geopolítico muito mais complexo e multipolar.

Os principais fatores que alimentam essa perspectiva são:

Multipolaridade nuclear

Diferentemente da Guerra Fria, quando a corrida armamentista foi centrada entre dois polos — Estados Unidos e União Soviética — a atual corrida teria um caráter multipolar, envolvendo não apenas Rússia e EUA, mas também outras potências nucleares em diferentes ritmos de desenvolvimento.

Tecnologias emergentes

O desenvolvimento de novas tecnologias militares, como mísseis hipersônicos, capacidades cibernéticas com potencial ofensivo, sistemas autônomos de armas e satélites militares, adiciona uma nova camada de complexidade à segurança nuclear. Esses avanços podem encorajar Estados a ampliar seus arsenais para manter competitividade tecnológica e estratégica.

Menos mecanismos de verificação

Sem instrumentos robustos como o New START, a transparência entre potências diminui, dificultando a construção de confiança e criando um ambiente propício para interpretações errôneas — nas quais um movimento defensivo de um país pode ser visto como uma ameaça ofensiva por outro.

Narrativas geopolíticas e rivalidades regionais

A competição entre Estados Unidos e Rússia raramente se limita ao plano bilateral. Ela se expressa em rivalidades em regiões como Europa Oriental, Oriente Médio, Ásia Central e até no Pacífico, onde alianças geopolíticas influenciam decisões estratégicas de armamentos.

Pressões internas e política doméstica

Em democracias e regimes autoritários, decisões de fortalecimento militar muitas vezes encontram apoio interno quando são apresentadas como defesa contra ameaças externas. Isso pode alimentar uma lógica de acumulação armamentista.

Consequências potenciais de uma nova corrida armamentista

O ressurgimento de uma corrida armamentista nuclear ou estratégica sem limites formais pode gerar diversas consequências, tanto diretas quanto indiretas:

1. Aumento dos gastos militares

Estados podem aumentar substancialmente seus orçamentos de defesa, desviando recursos significativos que poderiam ser usados em áreas sociais como saúde, educação e infraestrutura.

2. Maior risco de conflito

Em um ambiente onde arsenais nucleares são ampliados sem mecanismos de limitação, a probabilidade de mal-entendidos, crises acidentais e decisões precipitadas aumenta, elevando o risco de confrontos militares.

3. Fragilização das normas internacionais

O fim de limites nucleares pode deslegitimar outros acordos internacionais de controle de armas, criando um efeito dominó que enfraquece a arquitetura do direito internacional em matéria de segurança.

4. Desigualdades na corrida tecnológica

Países com maior capacidade tecnológica e econômica tendem a se beneficiar mais de uma corrida armamentista, ampliando desigualdades entre grandes potências e Estados menores, que podem sentir-se pressionados a se alinhar a blocos mais fortes ou a desenvolver capacidades próprias.

5. Impactos humanitários e sociais

Uma corrida armamentista nuclear tem riscos humanitários profundos. Além da possibilidade de uso acidental ou intencional de armas nucleares, o simples acúmulo e modernização desses arsenais tem efeitos psicológicos, ambientais e políticos que reverberam por gerações.

Perspectivas de mitigação e cooperação internacional

Embora o cenário descrito pareça preocupante, existem caminhos que podem reduzir os riscos associados ao fim de limites nucleares:

Diplomacia multilateral

Estados-demiurgos podem buscar novas formas de acordos multilaterais, envolvendo não apenas EUA e Rússia, mas também outras potências nucleares, com regras mais amplas e mecanismos de verificação inovadores.

Organizações internacionais

Organizações como a ONU e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) podem desempenhar papel central ao criar fóruns de diálogo, desenvolver normas técnicas e incentivar compromissos de transparência.

Pressão da sociedade civil

Movimentos pacifistas, organizações de direitos humanos e redes acadêmicas podem pressionar governos a reduzir investimentos militares e buscar soluções negociadas para conflitos — fortalecendo uma cultura global de coexistência pacífica.

Iniciativas bilaterais de confiança

Mesmo sem tratados formais, acordos bilaterais focados em notificações prévias de testes, intercâmbio de dados e linhas de comunicação direta podem reduzir riscos de desconfiança e interpretação errônea.

Conclusão

O fim dos limites nucleares entre Estados Unidos e Rússia, simbolizado pela expiração do New START sem substituto imediato, representa um momento crucial para a segurança internacional. Ele coloca em xeque décadas de esforços para conter a proliferação nuclear e limitações de arsenais, abrindo espaço para dinâmicas que se assemelham a uma nova corrida armamentista — agora em um mundo multipolar, tecnologicamente avançado e geopoliticamente fragmentado.

Se as potências globais não encontrarem formas de substituir os mecanismos de controle de armas por alternativas eficazes, o risco de instabilidade e competição acelerada pode aumentar de modo substantivo. A história mostra que corridas armamentistas não apenas consomem recursos consideráveis, mas também geram ciclos de desconfiança e confrontação que podem ser difíceis de controlar.

Ainda assim, a diplomacia, as instituições multilaterais e a pressão da sociedade civil oferecem caminhos para mitigar esses riscos. O desafio contemporâneo é transformar a crise atual não em um retorno aos piores momentos da Guerra Fria, mas em uma oportunidade de repensar a governança global de armamentos, reforçando a cooperação, a transparência e a segurança coletiva em um mundo cada vez mais interdependente.

By FocoGeo

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