Introdução
A Organização das Nações Unidas (ONU) — criada em 1945 com o objetivo de promover a paz, a cooperação entre os povos e o desenvolvimento global — enfrenta em 2026 um dos seus maiores desafios desde a sua fundação: um risco real de colapso financeiro. O secretário-geral, António Guterres, tem emitido alertas enfáticos de que a entidade pode ficar sem caixa para cumprir suas funções essenciais já em meados do ano, caso não haja mudanças significativas na forma como seus orçamentos são financiados e geridos.
Esse cenário — que combina inadimplência de contribuições obrigatórias, regras financeiras consideradas ultrapassadas e cortes deliberados de recursos por alguns Estados-membros — suscita questões profundas sobre o futuro da cooperação multilateral no século XXI. Este artigo analisa as causas desse colapso iminente, explica como o financiamento da ONU funciona, discute os riscos para programas humanitários e de paz e apresenta as possíveis respostas e reformas em debate.
Como a ONU é financiada? Entendendo o orçamento da organização
Antes de compreender por que a ONU está à beira de um colapso financeiro, é importante entender a base de seu financiamento.
A ONU depende de contribuições obrigatórias e voluntárias dos Estados-membros.
- As contribuições obrigatórias são taxas fixadas pela Assembleia Geral que cada Estado deve pagar para financiar o orçamento regular da ONU — responsável por atividades administrativas, diplomáticas, políticas de desenvolvimento e manutenção de operações básicas.
- As contribuições voluntárias, por sua vez, financiam programas específicos, como ajuda humanitária, desenvolvimento sustentável, saúde global e operações de paz mais custosas.
Esse modelo híbrido permite alguma flexibilidade, mas também cria fragilidades estruturais. Muitas das ações mais visíveis da ONU dependem de doações que não são garantidas, o que deixa a organização vulnerável às prioridades políticas e orçamentárias de governos nacionais.
Ao longo das últimas décadas, o modelo de financiamento da ONU tem sido debatido como insuficiente e dependente de grandes contribuintes, especialmente países ricos. Mas a crise atual expôs essas fragilidades de forma ainda mais aguda.
O que está causando a crise financeira em 2026
1. Atrasos e inadimplência em contribuições obrigatórias
A crise financeira que ameaça a ONU não é simplesmente sobre despesas excessivas; ela é, em grande parte, produto de contribuições obrigatórias não pagas ou pagas com atraso significativo. No final de 2025, o total de contribuições pendentes — ou seja, valores devidos por Estados-membros — chegou a US$ 1,568 bilhão, um recorde que mais que dobrou em relação ao ano anterior.
Esse grande encalhe financeiro reduz drasticamente a liquidez da organização, ou seja, a disponibilidade imediata de recursos para pagar salários, manter operações e financiar programas essenciais.
2. Regras orçamentárias consideradas inadequadas
As regras internas de finanças da ONU podem parecer enigmáticas e até paradoxais para observadores externos. Um aspecto criticado pelo próprio secretário-geral é uma norma que obriga a organização a devolver a Estados-membros recursos não gastos, mesmo quando esses recursos nunca foram recebidos dentro de um determinado período. Esse mecanismo coloca a ONU em um ciclo que alguns membros da própria instituição já chamaram de “kafkiano” — isto é, no qual a entidade tem que “devolver dinheiro que não chegou”.
Esse tipo de regra pressiona ainda mais um orçamento que já é apertado, pois reduz a capacidade de planejamento financeiro e limita o uso de fundos residuais para cobrir lacunas severas.
3. Redução de financiamento por grandes contribuintes
O alerta de colapso financeiro também coincide com cortes deliberados nos recursos de grandes Estados-membros, especialmente os Estados Unidos, tradicionalmente o maior doador da ONU. Em 2025, os EUA atrasaram ou deixaram de pagar parcelas de suas contribuições obrigatórias e reduziram contribuições voluntárias para diversas agências do sistema ONU.
A ausência de pagamentos regulares por parte de Washington — responsável por cerca de 22% das contribuições obrigatórias e volumes ainda maiores em contribuições voluntárias — tem impacto imediato e profundo sobre a capacidade de a ONU operar normalmente.
4. Mudança global de prioridades políticas
Parte da crise também reflete mudanças geopolíticas mais amplas. Alguns governos têm questionado o papel das instituições multilaterais e priorizado iniciativas bilaterais ou blocos regionais de cooperação, diminuindo a disposição de financiar organismos internacionais tradicionais. Essa tendência está ligada a uma retórica mais nacionalista em algumas capitais, que critica a ONU por suposta falta de efetividade, desvio de foco ou representatividade desequilibrada de interesses.
Os efeitos já visíveis da crise orçamentária
1. Cortes e congelamentos de atividades
Diante da falta de recursos, a ONU já implementou medidas de austeridade, incluindo cortes de orçamento, congelamento de contratações e adiamentos de programas. Isso significa que algumas agências e programas estão operando com equipes mais enxutas, horas reduzidas ou execução limitada de suas funções.
2. Redução da ajuda humanitária
Uma das consequências mais graves se manifesta nos programas de assistência humanitária. Antes da crise atual, cortes internacionais nos recursos já haviam forçado agência como o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) e programas ligados ao Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) a reduzir o alcance das operações de ajuda, impactando milhões de pessoas vulneráveis em regiões afetadas por conflitos, desastres naturais e crises prolongadas.
Sem recursos suficientes, entregas de alimentos, abrigo, cuidados médicos e proteção básica — pilares da ação humanitária global — podem ser ainda mais limitadas ou interrompidas.
3. Impacto na saúde global e outras áreas essenciais
O problema financeiro da ONU não fica confinado ao seu orçamento regular; ele se espalha por todo o sistema de agências que dependem de cooperação e financiamento multilateral. Por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou recentemente que cortes e lacunas em financiamentos ameaçam a capacidade de responder a epidemias, fortalecer sistemas de saúde e manter serviços essenciais em vários países, especialmente os de renda baixa e média.
Se o modelo de financiamento não for ajustado, programas de vacinação, vigilância epidemiológica e preparação para emergências podem sofrer consequências duradouras.
O papel dos grandes devedores
A crise atual é marcada por inadimplência de vários Estados, mas alguns países se destacam:
Estados Unidos
Os Estados Unidos, além de maior contribuinte obrigatório, também são historicamente a maior fonte de contribuições voluntárias para programas e agências da ONU. A política atual de Washington — caracterizada por atrasos e cortes nos pagamentos — tem sido apontada como um fator decisivo para a atual crise.
Outros Estados em atraso
Embora os EUA sejam o maior caso, outros países também estão em débito, contribuindo para o acúmulo global de contribuições não pagas. Isso adiciona pressão sobre o orçamento da ONU e limita a capacidade de responder de maneira coordenada às crises globais.
Os riscos de um colapso financeiro e suas implicações
Um eventual colapso financeiro da ONU teria efeitos profundos em diversas dimensões:
1. Perda de capacidade de mediação e diplomacia
A ONU desempenha um papel central na prevenção de conflitos, mediação de negociações de paz, supervisão de cessar-fogo e apoio a processos de reconciliação. Um enfraquecimento financeiro pode reduzir sua presença diplomática em regiões sensíveis.
2. Enfraquecimento da cooperação internacional
Sem um organismo forte que reúna 193 Estados-membros, a coordenação contra ameaças globais — como mudanças climáticas, pandemias, crimes transnacionais e pobreza extrema — pode ficar fragmentada, com resultados menos eficazes.
3. Impacto em programas de desenvolvimento sustentável
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU exigem investimento consistente e cooperação internacional ampliada. O secretário-geral já alertou que o mundo enfrenta um déficit de cerca de US$ 4 trilhões por ano para atingir esses objetivos, o que exige financiamento estável e previsível.
Sem recursos adequados, metas como fome zero, acesso universal à educação e igualdade de gênero podem se tornar ainda mais inalcançáveis.
4. Redução da ajuda humanitária e de emergência
Como já mencionado, cortes de financiamento já reduziram o alcance da ajuda humanitária. Em um mundo com conflitos múltiplos e crises climáticas intensas, um desmonte desses mecanismos pode agravar desastres humanitários.
Propostas de reforma e caminhos para evitar o colapso
Diante desse quadro, existem dois grandes caminhos em debate:
Honrar integralmente as contribuições
A solução imediata mais óbvia é que todos os Estados-membros paguem suas contribuições obrigatórias integralmente e no prazo, especialmente grandes economias que dependem menos de financiamento externo.
O secretário-geral afirmou que sem esses pagamentos, a ONU pode literalmente ficar sem dinheiro até julho de 2026.
Reformar as regras financeiras internas
Outra proposta central é revisar as regras orçamentárias, como a que obriga a devolver recursos não gastos mesmo quando estes nunca foram recebidos. Reformas desse tipo podem oferecer mais flexibilidade e impedir ciclos paradoxais que drenam recursos que a organização nunca teve acesso real.
Críticas e controvérsias
O debate sobre o financiamento da ONU não é apenas técnico — ele está imerso em questões políticas e ideológicas:
- Alguns críticos argumentam que a ONU gasta demais ou mal, e que cortes são necessários para forçar eficiência e foco nas prioridades.
- Outros veem a crise como reflexo de um enfraquecimento mais profundo do multilateralismo, com países grandes relativizando o valor de instituições globais em favor de agendas nacionais.
- Há ainda quem aponte que a crise financeira da ONU simboliza uma redistribuição de poder global, na qual novos polos (como China e Índia) estão se afirmando, enquanto antigas potências tentam remotar controle sobre normativas internacionais.
Essa pluralidade de visões complica a construção de um consenso robusto sobre o futuro financeiro da organização.
Conclusão
O risco de colapso financeiro da ONU em 2026 representa uma das mais sérias ameaças à cooperação multilateral desde a sua criação em 1945. Fruto de anos de inadimplência, regras orçamentárias rígidas e mudanças políticas globais, essa crise não pode ser vista apenas como um problema contábil — ela afeta diretamente a capacidade de promoção da paz, de apoio humanitário, de desenvolvimento sustentável e de resposta coordenada a desafios globais.
Enquanto a ONU corre contra o tempo para reunir os recursos necessários, a comunidade internacional enfrenta uma encruzilhada histórica: reafirmar o compromisso com instituições globais ou aceitar seu enfraquecimento como inevitável. A resposta a essa pergunta não determinará apenas o destino da ONU, mas o futuro da cooperação internacional no século XXI.