Introdução
Nas últimas décadas, o cenário internacional tem sido marcado por profundas transformações políticas, econômicas e estratégicas. Em meio a esse contexto, ganhou força no debate geopolítico e midiático a expressão “eixo das ditaduras”, utilizada para se referir a um conjunto de países governados por regimes autoritários que, apesar de diferenças históricas, culturais e ideológicas, apresentam convergências estratégicas, diplomáticas e militares. Mais do que uma simples categoria retórica, o chamado eixo das ditaduras passou a ser compreendido como um fenômeno relevante para a compreensão das disputas de poder no sistema internacional contemporâneo.
O termo é frequentemente empregado para designar a aproximação entre Estados como Rússia, China, Irã, Coreia do Norte e, em determinados contextos, países como Venezuela, Síria e Belarus. Essas nações compartilham, em maior ou menor grau, características como a centralização do poder político, restrições às liberdades civis, controle da imprensa, repressão à oposição e questionamentos recorrentes quanto ao respeito aos direitos humanos. Contudo, reduzir o eixo das ditaduras a um simples alinhamento ideológico seria uma análise limitada. Trata-se, sobretudo, de uma articulação pragmática, orientada por interesses estratégicos, econômicos e geopolíticos comuns.
Este artigo tem como objetivo analisar de forma aprofundada o que se entende por eixo das ditaduras, suas origens históricas, os fatores que explicam a aproximação entre esses regimes, suas formas de cooperação e os impactos dessa articulação para a ordem mundial. Ao longo do texto, busca-se uma abordagem analítica e contextualizada, evitando simplificações, de modo a compreender o fenômeno em sua complexidade.
O que se entende por ditadura no contexto contemporâneo
Antes de analisar o eixo das ditaduras, é fundamental compreender o que caracteriza um regime ditatorial no mundo atual. Diferentemente das ditaduras clássicas do século XX, marcadas por governos militares explícitos ou regimes totalitários ideologicamente fechados, muitas das ditaduras contemporâneas assumem formas mais sofisticadas e adaptadas ao sistema internacional.
Em termos gerais, uma ditadura pode ser definida como um regime político no qual o poder se concentra em uma pessoa, partido ou grupo restrito, sem a existência de mecanismos efetivos de alternância democrática. Eleições, quando ocorrem, tendem a ser controladas, limitadas ou desprovidas de competitividade real. Além disso, observa-se a fragilização ou inexistência da separação de poderes, com o Executivo exercendo forte influência sobre o Judiciário e o Legislativo.
Outro elemento central é a restrição das liberdades civis e políticas. A liberdade de imprensa é frequentemente limitada, com o Estado controlando ou censurando meios de comunicação. A oposição política é reprimida por meio de perseguições judiciais, prisões, exílios forçados ou violência direta. Organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos sociais operam sob vigilância constante ou enfrentam severas restrições.
No contexto contemporâneo, muitas ditaduras buscam legitimação por meio do discurso da soberania nacional, do desenvolvimento econômico ou da estabilidade interna. Esse discurso se apresenta como alternativa à democracia liberal, frequentemente retratada por esses regimes como decadente, instável ou dominada por interesses estrangeiros.
A origem do conceito de “eixo” na geopolítica
A utilização do termo “eixo” para descrever alianças entre Estados tem raízes históricas bem definidas. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Eixo foi a aliança formada principalmente por Alemanha, Itália e Japão, caracterizada por objetivos expansionistas e pela oposição às potências aliadas. Desde então, o termo passou a carregar uma conotação negativa, associada a regimes autoritários e projetos de poder que desafiam a ordem internacional vigente.
No século XXI, a expressão “eixo das ditaduras” surge como uma adaptação desse conceito histórico, aplicada a um contexto distinto, no qual não existe necessariamente uma aliança formal ou um bloco institucionalizado. Em vez disso, o eixo contemporâneo se caracteriza por uma rede de cooperação flexível, baseada em interesses convergentes e na oposição, explícita ou implícita, à hegemonia política, econômica e cultural do Ocidente, especialmente dos Estados Unidos e da União Europeia.
Diferentemente do eixo do século XX, não se trata de um bloco homogêneo ou ideologicamente unificado. As relações entre esses países são marcadas por pragmatismo, desconfianças mútuas e interesses específicos. Ainda assim, a cooperação ocorre de maneira consistente em áreas estratégicas, como defesa, energia, comércio, tecnologia e diplomacia internacional.
O contexto internacional que favorece o surgimento do eixo das ditaduras
O fortalecimento do eixo das ditaduras está diretamente relacionado às transformações do sistema internacional nas últimas décadas. O fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, em 1991, deram origem a um momento de hegemonia unipolar dos Estados Unidos. Durante esse período, consolidou-se a ideia de que a democracia liberal e o capitalismo de mercado representariam o modelo final de organização política e econômica global.
Entretanto, a partir dos anos 2000, esse cenário começou a se modificar. O crescimento econômico acelerado da China, a recuperação do poder militar e político da Rússia, o fortalecimento de potências regionais e as crises internas enfrentadas pelas democracias ocidentais contribuíram para a transição rumo a uma ordem internacional mais multipolar.
Nesse contexto, regimes autoritários passaram a encontrar maior margem de manobra para afirmar seus interesses e questionar normas e instituições internacionais dominadas pelo Ocidente. Sanções econômicas, intervenções militares, pressões diplomáticas e discursos sobre direitos humanos passaram a ser interpretados por esses Estados como instrumentos de dominação política.
A aproximação entre ditaduras, portanto, surge como resposta a esse ambiente internacional. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência política e de fortalecimento mútuo diante de um sistema percebido como hostil.
Rússia: autoritarismo, nacionalismo e projeção de poder
A Rússia ocupa posição central no eixo das ditaduras contemporâneo. Desde a ascensão de Vladimir Putin ao poder, no início dos anos 2000, o país passou por um processo de centralização política, enfraquecimento da oposição e fortalecimento do Estado sobre a sociedade e a economia.
O regime russo combina elementos de autoritarismo político com um forte discurso nacionalista e revisionista. A política externa russa busca reverter perdas territoriais e de influência ocorridas após o fim da União Soviética, desafiando diretamente a expansão da OTAN e a influência ocidental no Leste Europeu e em outras regiões estratégicas.
A atuação da Rússia em conflitos como a guerra na Ucrânia, bem como seu apoio a regimes autoritários no Oriente Médio e na África, evidencia seu papel como pilar do eixo das ditaduras. Além disso, Moscou atua como fornecedor de armas, energia e apoio diplomático a outros regimes autoritários, fortalecendo laços estratégicos duradouros.
China: autoritarismo político e poder econômico
A China representa outro eixo fundamental dessa articulação. Governada pelo Partido Comunista Chinês desde 1949, o país mantém um sistema político de partido único, com severas restrições às liberdades civis e políticas. Sob a liderança de Xi Jinping, observa-se um endurecimento do controle estatal, tanto no plano interno quanto no externo.
Diferentemente da Rússia, o poder chinês se baseia menos na projeção militar direta e mais em sua capacidade econômica e tecnológica. A China se tornou o principal parceiro comercial de dezenas de países, incluindo diversas ditaduras, oferecendo investimentos, financiamentos e infraestrutura por meio de iniciativas como a Nova Rota da Seda.
Esse poder econômico confere à China influência política significativa, permitindo-lhe construir alianças estratégicas sem exigir reformas democráticas ou respeito aos direitos humanos. Essa postura contrasta com a política externa ocidental e torna Pequim um parceiro atraente para regimes autoritários.
Irã e Coreia do Norte: resistência, sanções e sobrevivência
Irã e Coreia do Norte ocupam posições específicas dentro do eixo das ditaduras, marcadas por isolamento internacional, sanções econômicas severas e confrontos diretos com os Estados Unidos e seus aliados. Ambos os regimes desenvolveram estratégias de sobrevivência baseadas na militarização, no nacionalismo e na busca por autonomia estratégica.
O Irã, governado por uma teocracia autoritária desde 1979, exerce influência significativa no Oriente Médio, apoiando grupos e governos alinhados a seus interesses. Já a Coreia do Norte mantém um dos regimes mais fechados do mundo, utilizando seu programa nuclear como instrumento de barganha e dissuasão.
A cooperação entre esses países e outras ditaduras ocorre principalmente nas áreas militar, tecnológica e diplomática, reforçando a lógica de solidariedade entre regimes sob pressão internacional.
Venezuela, Síria e outros regimes autoritários aliados
Além das grandes potências autoritárias, o eixo das ditaduras inclui países que desempenham papéis regionais relevantes. A Venezuela, por exemplo, consolidou-se como um regime autoritário na América Latina, aproximando-se de Rússia, China e Irã como forma de garantir apoio político, econômico e militar.
A Síria, sob o governo de Bashar al-Assad, sobreviveu a uma longa guerra civil graças, em grande medida, ao apoio direto da Rússia e do Irã. Esses casos ilustram como o eixo das ditaduras funciona como uma rede de sustentação mútua, capaz de preservar regimes mesmo em contextos de intensa pressão interna e externa.
Formas de cooperação dentro do eixo das ditaduras
A cooperação entre ditaduras ocorre de maneira multifacetada. No campo militar, observa-se o fornecimento de armas, treinamento, tecnologia e apoio logístico. No plano econômico, destacam-se acordos energéticos, comerciais e financeiros que buscam contornar sanções internacionais.
Na esfera diplomática, esses países frequentemente se apoiam em organismos internacionais, bloqueando resoluções, vetando sanções e promovendo narrativas alternativas sobre soberania, não intervenção e multipolaridade.
Além disso, há cooperação no campo da tecnologia e da informação, incluindo o compartilhamento de métodos de vigilância, controle social e repressão digital.
Impactos do eixo das ditaduras na ordem internacional
A consolidação do eixo das ditaduras representa um desafio significativo à ordem internacional liberal construída após a Segunda Guerra Mundial. Ao questionar normas como direitos humanos universais, democracia representativa e intervenção humanitária, esses regimes promovem uma visão alternativa de governança global.
Esse movimento contribui para o enfraquecimento de instituições multilaterais, aumenta a fragmentação do sistema internacional e intensifica disputas geopolíticas. Ao mesmo tempo, revela as limitações da capacidade ocidental de impor seus valores e interesses em um mundo cada vez mais multipolar.
Conclusão
O eixo das ditaduras não deve ser compreendido como uma aliança formal ou homogênea, mas como uma articulação pragmática entre regimes autoritários que compartilham interesses estratégicos comuns. Sua existência reflete transformações profundas na dinâmica do poder global e evidencia a crise de legitimidade e influência enfrentada pelas democracias liberais.
Compreender esse fenômeno é essencial para analisar os conflitos contemporâneos, as disputas geopolíticas e os desafios futuros da ordem internacional. Mais do que um conceito retórico, o eixo das ditaduras expressa uma realidade concreta, cujos impactos continuarão a moldar o mundo nas próximas décadas.
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