Introdução

O termo “populismo” é um dos mais usados — e também um dos mais mal compreendidos — da política contemporânea. De tempos em tempos, ele volta ao centro do debate, seja para descrever líderes carismáticos, movimentos de massa ou estratégias de comunicação que apelam diretamente ao “povo”.

Mas o populismo não é uma invenção recente. Desde o século XIX, ele tem sido uma forma de fazer política que se apresenta como voz das maiorias contra as elites, misturando emoção, retórica e promessas de transformação.

Compreender o populismo é essencial para entender o cenário político atual, marcado por crises de representatividade, polarização e desconfiança nas instituições.

Neste artigo, vamos entender o que é o populismo, suas origens, como ele se manifesta na prática e por que continua tão presente nas democracias modernas.

O que é Populismo?

O populismo pode ser definido como uma estratégia política que se baseia na oposição entre dois polos:

  • O povo, visto como puro e virtuoso;
  • A elite, considerada corrupta, distante e inimiga do interesse popular.

O populista se apresenta como porta-voz do povo, alguém que compreende seus sofrimentos e promete restaurar sua dignidade. É um discurso moral, mais do que ideológico. O populismo pode estar à esquerda ou à direita, porque o que o define não é o conteúdo do projeto político, mas o modo como ele se comunica e se legitima.

Em essência, o populismo cria uma narrativa simples para problemas complexos. Ele transforma questões estruturais — econômicas, sociais e culturais — em batalhas entre “nós” e “eles”, em uma retórica que busca unir as massas em torno de um líder carismático.

Origens históricas do populismo

O termo “populismo” surgiu no século XIX, mas ganhou significados diferentes conforme o contexto histórico.

1. O populismo agrário dos Estados Unidos

Nos anos 1890, o People’s Party (ou Partido do Povo) defendia os pequenos agricultores contra os grandes bancos e indústrias. Esse movimento é considerado uma das primeiras expressões do populismo moderno, baseado na ideia de que o povo comum deveria ter voz frente às elites econômicas.

2. O populismo russo

No mesmo período, na Rússia, surgia o movimento narodnik, formado por intelectuais que defendiam o camponês como símbolo da pureza nacional. Eles acreditavam que o povo rural seria a base moral da sociedade, opondo-se à aristocracia e ao czarismo.

3. O populismo latino-americano

Foi na América Latina, no entanto, que o termo ganhou sua conotação mais conhecida.
Durante o século XX, líderes como Getúlio Vargas no Brasil, Juan Domingo Perón na Argentina e Lázaro Cárdenas no México utilizaram uma retórica de união nacional e defesa dos trabalhadores, combinando políticas sociais, carisma pessoal e autoridade política.

Esses governos buscavam conciliar o povo e o Estado, prometendo justiça social sem romper com as elites — uma marca típica do populismo latino-americano.

Características principais do populismo

Apesar de suas diferentes manifestações, o populismo possui elementos comuns que o definem:

1. A figura do líder carismático

O líder populista é central na narrativa. Ele se apresenta como porta-voz direto do povo, alguém que entende seus sentimentos e fala sua linguagem. Esse líder costuma desafiar as instituições tradicionais e reivindicar legitimidade por meio do apoio popular direto.

2. O discurso antielitista

O populismo constrói uma visão maniqueísta da política: o povo (puro, honesto) contra a elite (corrupta, exploradora). Essa retórica é usada para deslegitimar adversários e simplificar o debate público.

3. A apelação emocional

Em vez de argumentos técnicos, o populismo aposta em emoções, símbolos e identificação afetiva. É uma política que fala mais ao coração do que à razão.

4.

O populismo despreza intermediários — partidos, imprensa, parlamento — e busca contato direto com o povo, hoje potencializado pelas redes sociais. Essa comunicação direta reforça a ideia de que o líder “ouve o povo” sem filtros.

5. O nacionalismo e a identidade coletiva

Frequentemente, o populismo associa-se a discursos nacionalistas, prometendo defender os interesses do país contra inimigos externos ou internos.

Populismo de esquerda e de direita

O populismo não pertence a um espectro ideológico específico. Ele pode assumir faces distintas, dependendo do contexto histórico e das demandas sociais.

Populismo de esquerda

Geralmente foca nas desigualdades econômicas e sociais, criticando as elites financeiras e defendendo políticas redistributivas. Exemplos incluem Hugo Chávez na Venezuela e, em certo grau, movimentos progressistas que buscam “devolver o poder ao povo”.

Populismo de direita

Costuma enfatizar o nacionalismo, a moralidade tradicional e o combate à corrupção ou à imigração. Exemplo disso são líderes como Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil, que se apresentam como representantes da “vontade popular” contra as elites políticas ou midiáticas.

O que une essas versões é a retórica antissistêmica e a promessa de redenção do povo.

O populismo nas democracias modernas

Nas últimas décadas, o populismo ressurgiu com força nas democracias ocidentais. Isso se deve, em parte, a uma crise de representatividade: as pessoas sentem que os políticos tradicionais não as escutam, que as instituições são lentas e distantes.

O populismo oferece uma resposta emocional e simplificada: um líder que promete resolver problemas complexos de forma direta e imediata.

Contudo, esse tipo de política traz riscos. Ao concentrar o poder em torno de uma figura carismática e deslegitimar as instituições, o populismo pode enfraquecer a democracia liberal, abrindo espaço para o autoritarismo.

Em muitos casos, o populismo começa como um movimento de renovação, mas acaba se transformando em um sistema de poder que exclui o diálogo e sufoca a crítica.

O populismo na era digital

Com as redes sociais, o populismo ganhou uma nova dimensão.
As plataformas digitais permitem que líderes falem diretamente com milhões de pessoas, sem a mediação da imprensa tradicional. Isso cria uma comunicação emocional, imediata e personalizada.

O algoritmo das redes reforça bolhas de opinião, ampliando a polarização e fortalecendo a lógica “nós contra eles”. Assim, o populismo encontra um terreno fértil no ambiente digital, onde a emoção supera o debate racional.

Populismo e emoção política

É importante compreender que o populismo não é apenas uma estratégia racional de poder — ele também é movido por afetos: esperança, raiva, indignação e desejo de pertencimento.

O líder populista oferece uma narrativa emocional para o sofrimento coletivo. Ele transforma frustrações individuais em causa política, dando às pessoas um sentido de comunidade e importância moral.

Esse aspecto explica por que o populismo é tão duradouro: ele não depende apenas de políticas concretas, mas de vínculos simbólicos e emocionais.

Críticas e interpretações sociológicas

Os cientistas sociais oferecem diferentes interpretações sobre o populismo:

  • Para alguns, como Ernesto Laclau, o populismo é uma forma legítima de mobilização democrática, pois dá voz a grupos marginalizados.
  • Para outros, como Cas Mudde, ele é um “parasitismo ideológico”, que se apropria de diferentes discursos sem compromisso com princípios democráticos.
  • Já para a Sociologia clássica, o populismo reflete tensões estruturais das sociedades modernas — entre o desejo de igualdade e a frustração com as elites políticas.

Essas análises mostram que o populismo não é apenas um desvio da democracia, mas também um sintoma das suas falhas.

Conclusão

O populismo é um fenômeno complexo, que não pode ser reduzido a um rótulo político. Ele expressa uma necessidade humana profunda: a busca por reconhecimento, voz e pertencimento.

Em sociedades cada vez mais desiguais e despersonalizadas, o populismo surge como um grito — por vezes legítimo, por vezes perigoso — de que o povo quer ser ouvido.

A questão central não é apenas combater o populismo, mas compreender por que ele floresce. Quando as instituições se distanciam da realidade das pessoas, o discurso populista encontra espaço para se fortalecer.

Entender o populismo é, portanto, entender o próprio funcionamento da democracia e os desafios de viver em sociedades onde emoção, mídia e política se entrelaçam como nunca antes.

By FocoGeo

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