Introdução
Nas primeiras semanas de 2026, um tema inesperado entrou de forma contundente no debate geopolítico internacional: a possibilidade de os Estados Unidos anexarem a Groenlândia — um território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca — por meio de forças econômicas, diplomáticas e até ameaças implícitas. A ideia, longe de ser apenas especulativa, ganhou corpo quando o presidente norte-americano, Donald Trump, não apenas reafirmou seu interesse estratégico na região, como passou a condicionar suas ações externas à permissão para comprar, ou mesmo controlar, a ilha ártica.
Esse episódio provocou reação imediata de países europeus, críticos políticos, líderes do bloco da União Europeia e representantes da própria Dinamarca e Groenlândia — inclusive com reforço militar aliado no Ártico e ameaças de tarifas econômicas que podem escalar para um conflito transatlântico jamais visto entre aliados de longa data.
Mas afinal: os Estados Unidos irão anexar a Groenlândia? A resposta exige uma análise profunda das motivações, dos mecanismos usados, das implicações legais e das resistências enfrentadas. Cada ponto precisa ser contextualizado não só com base nos interesses políticos declarados por Washington, mas também à complexa reação internacional em um momento de tensão entre aliados.
A Groenlândia no foco estratégico norte-americano
Localização geográfica e importância militar
A Groenlândia ocupa uma posição singular em termos estratégicos. Com mais de 2 milhões de km² — a maior ilha do mundo — e localizada entre a América do Norte e a Europa, ela controla rotas marítimas essenciais para a navegação ártica e possui enorme valor geopolítico no contexto de rivalidades emergentes entre potências como Estados Unidos, Rússia e China. além disso, a ilha abriga bases militares e instalações de alerta antecipado essenciais para a defesa do Hemisfério Norte.
Historicamente, a presença militar dos EUA na Groenlândia remonta à Guerra Fria, quando bases foram estabelecidas no contexto da contenção soviética. Esse aspecto, somado à proximidade geográfica com o Ártico, explica parte da contínua atenção norte-americana, mas não justifica por si só uma tentativa formal de anexação, como veremos adiante.
Recursos naturais e oportunidades econômicas
A Groenlândia possui reservas abundantes de minerais estratégicos, como terras raras, urânio e outros elementos essenciais para tecnologias de ponta, além de potencial petrolífero. O derretimento do gelo ártico, resultado das mudanças climáticas, tem exposto áreas que antes eram inacessíveis, despertando interesse econômico internacional.
Trump tem repetidamente vinculado esse potencial aos argumentos de necessidade de controle direto. Contudo, especialistas apontam que acordos econômicos, parcerias e contratos de exploração capazes de garantir acesso a esses recursos sem necessidade de anexação formal já são prática corrente no mundo globalizado.
O movimento de Trump: tarifas como instrumento de pressão
Anúncio de tarifas a europeus
Em 17 de janeiro de 2026, Donald Trump anunciou que os Estados Unidos impôr-iam tarifas adicionais de 10% sobre mercadorias importadas provenientes de vários países europeus — incluindo Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia — caso não permitissem que os EUA “comprassem” a Groenlândia.
Trump condicionou a suspensão dessa medida ao avanço de negociações que resultassem na “compra completa e total” da Groenlândia, elevando as tarifas para até 25% a partir de 1º de junho de 2026 caso o impasse persistisse.
Esse anúncio não foi feito em torno de discussões comerciais isoladas, mas como uma forma de pressão geopolítica e econômica: ele explicitou uma estratégia de usar o comércio como ferramenta de coerção para forçar mudanças de política territorial que não encontram respaldo nem no direito internacional nem nos mecanismos diplomáticos tradicionais.
Reações europeias e respostas conjuntas
A reação europeia foi rápida e bastante crítica. Os governos da Dinamarca e dos demais países visados reforçaram a soberania sobre a Groenlândia, afirmando sua determinação de continuar unidos e coordenados em defesa da integridade territorial do Reino da Dinamarca e da soberania europeia no Ártico.
O anúncio de tarifas desencadeou debates em níveis altos da União Europeia (UE), com diplomatas reunidos para discutir possíveis respostas econômicas e políticas. Além disso, líderes europeus qualificaram as ameaças tarifárias como uma forma de “chantagem” e comportamento incompatível com a aliança transatlântica e os princípios que regem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Importante: a Otan se baseia no princípio de defesa coletiva, no qual um ataque a um membro é considerado um ataque a todos — exatamente o oposto de um cenário de anexação unilateral por parte de outro membro que se coloca como “aliado”.
Soberania groenlandesa e a escolha por alianças europeias
Reação de Groenlândia e Dinamarca
Autoridades groenlandesas foram categóricas: “não aceitarão uma aquisição pelos Estados Unidos em nenhuma circunstância”, reafirmando sua ligação política com a Dinamarca e seus compromissos com a Otan.
O primeiro-ministro groenlandês destacou que a ilha deseja se desenvolver soberanamente, com apoio de seus parceiros democráticos, reforçando que a população local não vê legitimidade em uma tentativa de aquisição por parte de outra potência, mesmo que sob pretextos de segurança.
Essas posições deixam claro que, jurídica e politicamente, a Groenlândia não está disponível para negociação territorial. Qualquer tentativa de imposição ou de “venda” seria inconstitucional e fora do escopo do direito internacional contemporâneo.
O papel da Otan e o reforço da presença militar europeia
Em resposta às declarações dos Estados Unidos, países europeus participantes da Otan enviaram tropas simbólicas para a Groenlândia, como parte de exercícios de reconhecimento e de reforço da presença aliada no Ártico, frisando que sua movimentação não representa ameaça militar unilateral, mas sim cooperação em defesa coletiva.
Esse movimento simboliza a resposta europeia àquilo que foi percebido como uma pressão indevida: nem todos os aliados da Otan estão dispostos a ceder território ou autonomia em nome de estratégias geopolíticas de curto prazo.
A dimensão legal e as normas internacionais
Soberania e autodeterminação
O direito internacional moderno é cristalino sobre a soberania territorial e o princípio de autodeterminação dos povos. Nenhum Estado pode ser comprado ou anexado se a população local e os Estados envolvidos não consentirem — e, neste caso, a Groenlândia já afirmou repetidamente que não deseja ser parte dos Estados Unidos ou ser governada por ele.
Além disso, a Dinamarca, como Estado soberano responsável pelo território, também rejeitou a proposta, reafirmando sua autoridade e sua determinação de manter o controle legítimo sobre o território arctico.
A Otan e a segurança coletiva
A Groenlândia está inserida no âmbito da Otan, que se baseia em compromissos de segurança e defesa coletiva. A tentativa de forçar mudanças territoriais no contexto dessa aliança militar fragiliza a confiança entre membros e contraria os princípios fundamentais do pacto, incluindo a resolução pacífica de divergências entre aliados.
Crise nas relações transatlânticas: um possível ponto de ruptura
Impactos diplomáticos e econômicos
As ameaças tarifárias vinculadas à Groenlândia representam um ponto de tensão significativo nas relações entre os Estados Unidos e seus aliados europeus. Os diplomatas europeus caracterizaram a abordagem norte-americana como chantagem econômica e tentativa de coerção.
A União Europeia chegou a considerar medidas retaliatórias robustas, incluindo a possibilidade de ativar o seu instrumento anti-coerção, um mecanismo projetado para contrapor pressões econômicas injustas — algo que, por sua vez, mostra a gravidade do impasse nas relações transatlânticas.
Além disso, líderes europeus expressaram preocupação de que a situação possa evoluir para um conflito econômico mais amplo, com impacto não apenas sobre comércio, mas também sobre coesão política dentro da própria Otan.
É plausível que os Estados Unidos anexem a Groenlândia?
A anexação militar
Apesar das declarações de Trump de que a anexação poderia ocorrer “por bem ou por mal”, inclusive sem descartar o uso da força em algum momento, a realidade geopolítica atual torna essa hipótese extremamente improvável.
Para anexar um território soberano, um Estado precisaria:
- violar o direito internacional, desrespeitando a soberania de outro país,
- enfrentar rejeição explícita da população local,
- enfrentar oposição de blocos como a UE e de alianças militares como a Otan,
- arriscar sanções econômicas e políticas globais.
Nenhuma dessas condições está presente de forma favorável aos EUA no atual cenário.
A anexação econômica ou política
A alternativa à anexação militar seria tentar pressionar por um acordo político ou econômico que levasse a uma mudança de soberania. Porém, como já demonstrado, tanto Groenlândia quanto Dinamarca são contra qualquer cessão territorial, e um acordo desse tipo exigiria não apenas vontade dos Estados Unidos — algo que não existe — mas também o consentimento explícito de ambas as partes.
Cenários futuros e perspectivas
1. Status quo reforçado
O cenário mais provável no curto e médio prazo é que a Groenlândia permaneça sob soberania dinamarquesa, com reforços de cooperação militar e econômica entre aliados, sem tam a ideia de venda ou anexação concreta prosperar.
2. Intensificação de tensões transatlânticas
Caso as ameaças tarifárias avancem e se consolidem sem resolução, pode haver uma crise prolongada nas relações entre EUA e Europa, impactando comércio, defesa conjunta e cooperação política em áreas estratégicas.
3. Cooperação ampliada sem alteração de soberania
Uma saída diplomática que tem sido discutida é reforçar a segurança arctico em conjunto — através da Otan e com participação sustentável dos EUA — sem mudanças territoriais, atendendo às preocupações estratégicas americanas e preservando a soberania de aliados.
Conclusão
A pergunta “Os Estados Unidos irão anexar a Groenlândia?” tem como resposta, no presente contexto, um não qualificado: não parece plausível que os Estados Unidos consiga anexar a Groenlândia formalmente, seja por compra, seja por coerção econômica ou militar.
O projeto de Trump em condicionar tarifas à permissão para “comprar” a ilha colocou uma tensão inédita nas relações entre Washington e seus aliados europeus, mas também evidenciou que:
- soberania territorial continua sendo um princípio jurídico e político robusto;
- aliados europeus permanecem firmes em sua defesa conjunta da integridade territorial;
- mecanismos de defesa coletiva (como a Otan) tornam a anexação um objetivo improvável;
- a tentativa de coerção econômica pode gerar efeitos contrários aos interesses norte-americanos a longo prazo.
Assim, embora a Groenlândia tenha se tornado um ponto de discussão estratégica de grande importância, a anexação formal não é uma consequência realista no sistema internacional atual. O episódio expõe, isso sim, tensões profundas entre interesses estratégicos e normas de soberania, e pode ser indicador de futuros desafios nas relações transatlânticas nas próximas décadas.